Machismo faz, sim, mal à saúde

Como o conjunto de crenças e regras impostas pela sociedade, como a que afirma que “homem que é homem não chora”, prejudica o bem-estar deles e do entorno

O parceiro de uma amiga perdeu o emprego. Em algumas semanas, passou a sair menos com os colegas. Alguns meses depois, deixou de atender suas ligações. Ninguém entendeu nada. Qual era a razão do sumiço? A resposta é uma só: vergonha. O sujeito que cresceu ouvindo que homem que é homem tem que ser “forte”, “corajoso” e “bem-sucedido”, entre outros atributos, estava com tanta vergonha por estar desempregado que entrou em depressão.

Resultado: levou mais de um ano até reconhecer que precisava de ajuda para sair daquele buraco. Essa é apenas uma das muitas histórias que Guilherme Valadares conta nas palestras e nos workshops que dá Brasil afora.

Consequências em várias esferas

A masculinidade tóxica repercute em diversos ambientes. Reconhecê-la é o primeiro passo para superá-la em todos esses contextos:

No consultório: eles não só vão menos ao médico como aderem menos ao tratamento proposto, quando não fogem de exames preventivos. Não são poucos os motivos: desde a vergonha de demonstrar fraqueza até o medo de descobrir doenças.

Na escola: adolescentes criados em ambientes machistas tendem a reproduzir em sala de aula o que aprendem em casa. Contam piadas preconceituosas, usam termos agressivos para atacar colegas de classe e não respeitam ideias e opiniões dos outros.

Na terapia: seis em cada dez homens dizem enfrentar um distúrbio emocional, como vício ou depressão. Muitos nem sequer recebem o diagnóstico por evitar apoio psicoterápico.

No trabalho: duas demonstrações de machismo no ambiente corporativo são o bropriating (apropriar-se de uma ideia da mulher e levar o crédito) e o mansplaining (explicar algo óbvio a uma mulher como se ela não tivesse capacidade para entender).

O entorno também sofre

A masculinidade tóxica, é preciso deixar bem claro, afeta a saúde de todo mundo. Não só do homem em si, mas de todos ao seu redor. É como uma bomba-relógio. Quando explode, sobra estilhaço para qualquer lado. Para outros homens, para as mulheres, para pessoas trans, para crianças, para indivíduos de outras culturas…

Os homens podem e querem se transformar. Mas não vamos conseguir fazer isso sozinhos.

Veja, leia, participe…

Alguns filmes e livros nos instigam a refletir sobre a masculinidade tóxica, enquanto grupos e serviços ajudam a lidar com ela no dia a dia:

Filmes, docs e livros

• Meninos Não Choram (1999), de Kimberly Peirce

• Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), de Barry Jenkins

• Eu Não Sou um Homem Fácil (2018), de Éléonore Pourriat

• A Máscara em Que Você Vive (2015), de Jennifer Newsom

• Mexeu com Uma, Mexeu com Todas (2017), de Sandra Werneck

• O Silêncio dos Homens (2019), de Ian Leite

• O Mito da Masculinidade (1993), de Sócrates Nolasco

• História dos Homens no Brasil (2013), de Mary Del Priore e Márcia Amantino

• O Homem Subjugado (2018), de Malvina Muszkat