Pandemia aponta urgência no tratamento da obesidade

O fato de indivíduos obesos serem as grandes vítimas da Covid-19 evidencia que o excesso de peso não é um problema estético, e sim de saúde

A despeito de todas as consequências graves da Covid-19, alguns aprendizados podem e devem ser absorvidos como uma oportunidade efetiva de compreensão sobre a obesidade – até para não continuarmos errando no presente e, principalmente, no futuro.

Uma das lições mais importantes, sem dúvida, é a necessidade de entendermos essa doença – sim, ela é reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde desde 1985 – como um quadro crônico e incurável. Infelizmente, até hoje esse problema sério é comumente associado a um “desleixo” por parte do paciente.

Quem convive com indivíduos obesos há um bom tempo (no meu caso, essa relação já dura 20 anos) sabe que esse “conceito” está errado. Na verdade, é mais um preconceito da própria sociedade, que não tem o conhecimento de que a obesidade mórbida não tem cura, apesar da existência de cirurgia e muitos medicamentos.

Um dos legados dessa brutal pandemia é justamente jogar luz sobre esse tema. Desde o início da quarentena, em março de 2020, foi nítida a mudança no entendimento sobre quais eram os fatores de risco associados ao agravamento da Covid-19.

Logo de cara, eles ficavam restritos à idade e presença de comorbidades, como diabetes e hipertensão. Com o avanço de casos, viu-se que o obeso faz parte de um dos grupos com maior risco de morte diante de complicações.

Pessoas com obesidade têm duas vezes mais chance de serem hospitalizadas por agravamento da Covid-19, de acordo com a Federação Mundial de Obesidade. Além disso, os dados mais recentes da entidade, divulgados em março deste ano, apontam que 90% das mortes pela doença ocorrem em países com graus elevados de sobrepeso.

Os números indicam ainda que as taxas de mortalidade pela infecção são 10 vezes mais altas nas nações em que mais de 50% da população apresenta obesidade.

É preciso avançar de verdade nessa questão. Retirar a venda, derrubar rótulos. Desassociar o tema do culto ao padrão de corpo, que marginaliza quem não se enquadra.

Obesidade não é questão de estética. Se não incluirmos hoje os nossos obesos nas estratégias de saúde pública e atenção primária em saúde, teremos perdido uma importante batalha. E essa não depende da guerra contra o vírus.

Fonte: Veja Saúde.